Indústria do cimento enfrenta desafios para avançar na sustentabilidade

Cerca de 60% das emissões da produção de cimento estão relacionadas ao próprio processo industrial, o que torna a descarbonização um desafio mesmo com o uso de energia renovável. Segundo a Global Cement and Concrete Association (GCCA), grande parte do CO₂ é liberada durante a produção do clínquer, quando o calcário é submetido a temperaturas de aproximadamente 1.450 °C.
Diante desse cenário, estratégias como a redução do uso de clínquer e o reaproveitamento de resíduos ganham importância para diminuir a pegada de carbono da indústria. “Por isso, substituir combustíveis fósseis ou utilizar energia renovável é importante, mas não resolve sozinho o problema. Parte significativa das emissões está diretamente ligada à transformação da matéria-prima”, explica a engenheira Viviani Meneghin Magalhães, que atua há mais de 20 anos na indústria cimenteira.
As emissões de processo representam cerca de 60% do total gerado na fabricação do cimento, um dos materiais mais utilizados no mundo. Com produção anual de aproximadamente 14 bilhões de m³, o produto é essencial para construções, estradas, pontes, saneamento e grandes obras de infraestrutura. “Não se trata simplesmente de deixar de produzir, mas de encontrar maneiras de atender às necessidades de habitação, urbanização e infraestrutura com um impacto ambiental cada vez menor”, afirma Viviani.
A especialista diz que para se obter um cimento com menos carbono é necessária a combinação de diferentes estratégias, como a redução da proporção de clínquer no cimento e substituí-lo parcialmente por outros materiais cimentícios como pozolanas, escórias, filler calcários. “Esta é uma das principais formas de reduzir as emissões sem comprometer o desempenho do produto. Assim se contribui para produção de cimentos com menor pegada de carbono”.
A segunda adoção é a ampliar a substituição de insumos tradicionais, como o calcário, a argila e os corretivos de ferro, sílica e alumínio, por materiais alternativos pré-descarbonatados. “Ao reaproveitar resíduos que antes seriam descartados, a indústria não apenas reduz a extração de recursos naturais, mas também mitiga drasticamente as emissões de CO₂ em toda a cadeia produtiva. Trata-se de um duplo ganho ambiental: eliminamos o passivo do descarte urbano ou industrial e entregamos uma pegada de carbono significativamente menor para o planeta”.
A modernização de equipamentos, a otimização dos fornos, a recuperação de calor e o uso de combustíveis alternativos podem reduzir o consumo de energia e as emissões na produção de cimento. Tecnologias de captura, utilização e armazenamento de carbono (CCUS) também são estratégicas para enfrentar emissões difíceis de eliminar, como as geradas pela calcinação.
Segundo Viviani, ampliar a durabilidade das estruturas, reciclar e reaproveitar materiais também contribui para reduzir o impacto da cadeia. O principal desafio é levar essas soluções da pesquisa para a produção em larga escala. “É preciso considerar a disponibilidade das matérias-primas, o desempenho dos produtos, as normas técnicas, os custos e a capacidade produtiva. Inovar no cimento não significa apenas encontrar uma solução tecnicamente melhor, mas conseguir aplicá-la na escala de que o mundo precisa”, ressalta.
































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